quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A INFLUÊNCIA DE ROMANOS NA HISTÓRIA CRISTÃ

De todas as cartas paulinas provavelmente Romanos seja a mais importante. Além de ser a sua carta mais extensa é uma das mais doutrinárias, ricas e estruturadas. E essa carta mais do que qualquer outra tem influenciado de maneira decisiva a história mundial.
Foi por intermédio da leitura dessa carta que no verão de 386 d. C, Aurélio Agostinho foi convertido a Cristo. Agostinho, antes de sua conversão, levava uma vida marcada pela imoralidade, ele sabia que aquele modo de vida era incorreto, mas não conseguia libertar-se dos seus vícios sexuais, ele mesmo admite que a sua constante oração era: Dá-me o dom de castidade, mas ainda não. Assim uma verdadeira batalha era travada na alma de Agostinho, uma luta entre o querer e o não querer. Queria tornar-se cristão, mas não desejava abandonar as alegrias mundanas.
Certo dia, em agosto de 386, Agostinho se pôs a chorar no Jardim de seu amigo Alípio. Em terrível agonia de espírito, Agostinho quase persuadido a começar vida nova, mas sem chegar à resolução final de finalmente romper com a vida que levava. Naquele terrível dilema, Agostinho ouviu uma canção infantil, uma criança cantava: Tolle, lege! Tolle, lege! (Toma e lê! Toma e lê). Ao voltar os seus olhos ao manuscrito que estava ao lado os seus olhos foram guiados a estas palavras:
“Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (Rm 13.13,14).
O próprio Agostinho confessa: “Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a leitura dessa frase, dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se penetrasse no meu coração uma luz de certeza”.
Agostinho tornou-se o maior teólogo da igreja ocidental. Dos escritos do “doutor da graça”, como ficou conhecido, beberam grandes homens como Lutero e Calvino. O que a igreja e o mundo devem a este influxo de luz que iluminou a mente de Agostinho quando leu essas palavras de Paulo, é algo que está além da nossa capacidade de avaliação. [1]
Em novembro de 1515, o monge agostiniano, Martinho Lutero, professor de teologia sagrada na Universidade de Wittenberg, começou a expor a Epístola de Paulo aos Romanos aos seus alunos, e continuou esse curso até setembro seguinte. A Escritura que se destacou de todas as outras e que tirou Lutero da mera religião morta, conduzindo-o à alegria da salvação pela graça, por meio da fé, foi Romanos 1.17: “O justo viverá por fé”. Foi nesse período que a gloriosa verdade divina da justificação pela fé entrou em sua vida. Quando Lutero entendeu que a justiça de Cristo é imputada a nós, por pura graça e misericórdia ele escreveu: “Esta passagem veio a ser para mim uma porta para o céu”. Seus olhos foram abertos, sua mente foi iluminada e seu coração encontrou repouso seguro na obra de Cristo. A justiça de Deus trouxe-lhe descanso a sua alma cansada.
Entrincheirado nessa verdade, Lutero desencadeou um dos maiores movimentos da igreja desde o Pentecostes. A carta de Paulo aos Romanos foi o tiro de canhão usado por Lutero para despertar as pessoas pressas na fortaleza da morta tradição.
Na Inglaterra do século 18 um grande avivamento foi desencadeado pelo efeito de Romanos. Naqueles dias os pregadores eram frios, vazios e sem poder. Poucos ousavam crer na veracidade e na suficiência das Escrituras. Muitos, após pregarem os seus sermões sem vida, desciam do púlpito para se embriagarem nas mesas de jogos.
Nesse tempo de apostasia, um grupo de jovens começou a se reunir e a orar pelo reavivamento espiritual, formando o chamado “Clube Santo”. No dia 24 de maio de 1738, John Wesley visitou – de muita má vontade – uma reunião dos irmãos morávios, na rua Aldersgate, em Londres. Naquela reunião, Wesley ouviu a leitura do prefácio de Lutero ao comentário de Romanos e como ele mesmo disse: “o meu coração foi estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a minha salvação. Foi-me dada a certeza de que Ele tinha levado embora os meus pecados, sim, os meus. E me salvou da lei do pecado e da morte”.
Começava ali um grande despertamento espiritual. Wesley tornou-se um líder de grande expressão na Inglaterra. Criou depois a igreja metodista, uma igreja que buscava a santidade, o fervor espiritual e a salvação dos perdidos. A influência de John Wesley não ficou restrita a Inglaterra, o que já seria notável, mas atingiu horizontes ainda mais largos.
Em agosto de 1918, Karl Barth, pastor em Safenwil, do Cantão de Aargau, na Suiça, publicou uma exposição da Epístola de Paulo aos Romanos. No prefácio de sua obra ele escreveu: “O leitor perceberá por si mesmo que foi escrito com um jubiloso sentimento de descoberta. A poderosa voz de Paulo era nova para mim. E se o era para mim, certamente o seria para muitos outros também. Entretanto, agora que terminei minha obra, vejo que resta muita coisa que ainda não ouvi”.
Karl Barth combateu tenazmente o liberalismo teológico dos seus dias, e o seu comentário aos Romanos é considerada a sua obra mais contundente. Alguém já disse que o comentário de Karl Barth “caiu como uma granada no pátio de recreio dos teólogos, uma verdadeira bomba no acampamento dos teólogos liberais”.
A Epístola de Paulo aos Romanos tem sido um divisor de águas na História da Igreja Cristã. Os maiores nomes da igreja tem voltado a sua atenção as palavras do apóstolo Paulo aos Romanos e os benefícios encontrados nos comentários de Martinho Lutero, João Calvino, Karl Barth, John Murray, F. F. Bruce, Warren Wiersbe, Lloyd-Jones, John Stott e tantos outros são importantíssimos!
F. F. Bruce disse que não é possível predizer o que pode acontecer quando as pessoas começam a estudar a Epístola aos Romanos. O que sucedeu com Agostinho, Lutero, Wesley e Barth acionou grandes movimentos espirituais que deixaram sua marca na história do mundo.[2]

Rikison Moura, V. D. M.




[1] F. F. Bruce. Romanos, Introdução e Comentário, p.51.
[2] Idem, p 52.

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